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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Algemas

Ela consentiu aquela algema, com um sorriso nos lábios e uma lágrima dançando no canto dos olhos. Afinal de contas, mesmo feliz, ela não deixava de ser uma grande chorona. Logo saiu mostrando o seu presente para todo mundo, até que uma amiga mais libertina a alertou para o real significado daquilo: isso é para te prender o tempo todo. Ela bem que gostou da ideia.

Olhar para o braço se tornou gesto repetido de lembrança e carinho, com as três estrelas reluzindo seu símbolo preferido. E ela ria muito quando se lembrava das palavras da amiga.

Sem querer, ela não sabia mais onde havia guardado o símbolo do amor que foi construído cuidadosamente, mesmo depois de revirar toda a casa; tinha náuseas de desespero. Entre lágrimas (como deixá-las de lado, hein?), confessou seu medo.

E descobriu que o Amor sobrevive às algemas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

E agora está de bem...

A couraça vinha presente, junto com um monte defesas ensaiadíssimas para qualquer circunstância desgradável. "Você diz isso porque não imagina..." O salto alto era metafórico, e o lápis de olho foi deixado de lado para evitar constrangimentos. Orgulho, orgulho, orgulho. Mesmo que ela soubesse que aquele orgulho ia ser pisoteado, ela precisava dele para se proteger, pelo menos antes do desenrolar das coisas.

Quando ela escutou a voz subindo as escadas, não sabia se o que ela queria era sumir, chorar de medo ou dar uma gargalhada nervosa. Resolveu, em alguns segundos, não fazer nenhuma das três coisas; sorte a dela. Quando ele entrou, deu-lhe um abraço tão normal que ela ficou sem saber o que tinha feito com aqueles três anos de silêncio e lágrimas.

Ainda perplexa, correu para o outro lado do balcão da cozinha e fez qualquer coisa que ela sabia que ele ia gostar. Deu certo, a conversa passou a ter gosto de molho rosê, e ele gostou tanto que ela precisou fazer um pouco mais. Estranhamente, ele tinha entendido tudo, ela também. Sem os tais questionamentos para os quais ela tinha se preparado tanto, ela jogou a armadura fora junto com a embalagem do creme de leite.

Naquele dia, ela chegou em casa e se perguntou para onde ela tinha viajado, porque aquela situação sem turbulências e tanto assunto só podia ser resultante de um retorno de algum lugar. E, claro, chorou bastante por eles serem dois teimosos que não tinham comprado o bilhete de volta antes.

Depois disso, passou-se ao melhor de tudo: a redescoberta. O perfume misturado com cigarro era o mesmo, assim como o gosto musical. As histórias repetidas ganharam uma musicalidade nova. Ela se encontrou com ela mesma, aquela de dez, vinte anos atrás. E ela descobriu que eles, espantosa e geneticamente, ainda eram os mesmos de sempre.

Só um pouco menos orgulhosos.

*

Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
(Conversa de Botas Batidas, Los Hermanos)

terça-feira, 3 de março de 2009

Imperfeito

Porque amores imporfeitos são as flores da estação.

Esses dias, eu estava assistindo a um desses programas de variedades da TV. O quadro era sobre relacionamentos, e um casal falava sobre as coisas que mais irritavam no parceiro. Confesso que morri de rir, porque falaria as mesmas coisas que a moça da TV, além de saber que as respostas do Gustavo seriam as mesmas do cara. E ri mais ainda, porque, mesmo sabendo disso, a gente não muda, nem vai mudar.

Coisas bobas: detesto como ela demora para arrumar o cabelo, me irrito quando ele passa mal e não procura um médico, e por aí vai. Mas, quer saber? Morreria de tédio num relacionamento no qual o outro lado sempre fizesse o que eu quero. As coisas se tornariam tão previsíveis que uma hora eu largaria mão de tudo aquilo e partiria em busca de alguma coisa mais eletrizante.

Por mais que bufemos de raiva, não adianta: não serviria outra pessoa. Por trás de tanta pentelhice, mora aquele jeito único de agradar, a companhia divertida, o gosto por alguma-coisa-que-ninguém-mais-no-mundo-gostava, uma flor sem motivo e uma gargalhada gostosa.

É a teimosia que faz rir, é a birra que faz pensar, é a implicância boba que diverte, é a chatice alheia que faz com que analisemos a nossa própria. Dentro de limites saudáveis, lógico; porque ninguém agüentaria passar o tempo todo sendo perturbado pelo parceiro.

Porque ninguém é perfeito, muito menos a gente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

More than Words

Minha casa tem uma regra de ouro em seu jus non scriptum: eu não preciso dizer que te amo.

Não, eu nunca disse aos meus avós o quanto eu os amo desesperadamente. E nas vezes que eu disse isso à minha mãe, a resposta foi “não ama não e você vê o que te acontece.”

Você deve se perguntar nesse momento de que planeta saímos. Somos uma gente esquisita, que não se preocupa em falar daquilo que faz. Eu vivo uma lição diária de amor desmesurado nas gargalhadas, olhares e mãos dadas dos meus avós. Nas minhas conversas madrugada adentro com a minha mãe. Nas opiniões e broncas engraçadíssimas que eu escuto da minha avó. No olhar de alegria do meu avô quando me busca na rodoviária e não me deixa sequer carregar as malas, ou quando ele me cumprimenta com uma “testada” sem jeito. Nos cuidados, carinhos e gestos mudos.

A verdade é que somos um tanto quanto tímidos. Se eu dou um beijo na minha avó, ela fica vermelha feito pimentão. Se eu digo para o meu avô o quanto ele é gatíssimo, ele quase se esconde. Se eu abraço minha mãe de surpresa, ela grita de susto. As declarações ditas “normais” de amor não funcionam com essa família.

Meu irmão ainda é uma exceção divertida dessa regra. Abraça, beija, diz que ama. Mas esse é um “primeiro amor”: ele ainda vai entender a profundidade do nosso jeito estranho de amar.
Por causa disso, torna-se raro me encontrar por aí declarando que amo as pessoas. Eu amo nos gestos, nas ações, ou como diria a minha bisavó (que era sábia de assustar): eu amo comendo um quilo de sal junto.

Por que eu estou expondo minha gente desse jeito hoje? Porque eu estou morrendo de saudades da minha casa...e porque “eu te amo” não é “bom dia”, oras!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Lendas Urbanas

Todos nós já escutamos alguma lenda urbana. Desde as que tratam de amor as que tratam de situações absurdas. São tantas as histórias que talvez, baseamos – ou acalentamos – nossas vidas em lendas.

Qual mulher solteira nunca escutou a história de que um belo dia Maricotinha foi ao supermercado e encontrou o amor da sua vida? Resposta: Todas. A questão é: será que os mitos urbanos podem se concretizar?

Acredito que a vida é uma série de combinações do acaso. Isso com certeza dificulta – um pouco – a possibilidade de nos tornarmos prova viva das tais lendas. Eu – mulher solteira que sou – sempre fico me imaginando nessas posições. Imagina ir à padaria e voltar com um possível ficante a tiracolo? Genial não?!

Infelizmente já passei um pouco da fase de acreditar – argh! De novo isso – em contos de fada. A cada dia mais me apego a probabilidades. Seguinte, existem cerca de 6,5 bilhões de pessoas no mundo. No Rio são – sei lá – 6 milhões de habitantes, desse número mais da metade é mulher, ou seja a minha possibilidade de viver o meu conto de fadas é muito pequeno. Tem pouco homem e outra qual é a incidência desses casos – bonitinhos – na população? Se for parar para ver, vou desanimar!

È melhor eu começar a aposentar as tais lendas urbanas. Vou pensar nas maneiras mais normais – se é que isso é normal – de me deparar com o Shrek – sim um ogro – da minha vida, afinal ele é bem mais legal que o encantado. Talvez ele me reserve aventuras – não tão fantásticas quanto os contos de fada – interessantes e possíveis.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Amor

Meus avós estão fazendo Bodas de Ouro. Não quaisquer 50 anos de casados, mas 50 anos aproveitados juntos, na alegria e na tristeza. Eles viveram milhares de coisas difíceis juntos, e endureceram juntos sem perder a ternura.

Eles enfrentaram falta de grana, mas aprenderam a curtir juntos até o Jornal Nacional. Eles têm milhares de diferenças pessoais (quem conhece, sabe o quanto eles são radicalmente diferentes em temperamentos e jeitos), mas não perderam o gesto singelo de andarem de mãos dadas. Eles enfrentaram problemas de toda sorte, mas remexendo as fotos antigas eu só encontro carinho, transbordando nos olhares e sorrisos, mostrando um ao outro que o que quer que acontecesse de ruim, eles ainda teriam um ao outro.

Quando eu desacredito no amor, eu me lembro que existe gente sortuda como eles dois. É a risada só deles que dissipa qualquer dúvida que eu possa ter a respeito de felicidade. Quando eu fraquejo nos meus obstáculos, é neles que eu me miro para seguir em frente. É a minha avó barulhenta e sanguínea que me sacode e me traz de volta ao rumo. É o meu avô tranquilo e sereno que me mostra que o mundo pode ser do jeito que eu quiser, apesar do caos reinante.

Tão diferentes, tão complementares.

(Coisas de neta coruja, que gastou os últimos meses remexendo fotos e tentando descobrir qual era "a" música deles...não é que eu descobri?)


NOITE DO MEU BEM
Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de crianças dormindo
Quero o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que eu quero lhe dar